Hidetaka Miyazaki criou um monstro. O gênero Soulslike virou padrão de mercado, quase um dogma religioso para quem segura um controle. Mas a FromSoftware não detém o monopólio da dor. Outros estúdios olharam para a fórmula da fogueira e disseram: “Podemos fazer isso. E podemos fazer mais estranho.”
Esqueça Lordran ou as Terras Intermédias por um minuto. A indústria está cheia de criadores sádicos prontos para testar seus reflexos. Aqui estão doze provas de que o sofrimento vem em muitos sabores.

Blasphemous
Isso não é fantasia medieval genérica. É culpa católica destilada em pixel art. Baseado no folclore espanhol e na iconografia religiosa de Sevilha, você controla o Penitente em um mundo distorcido pelo “Milagre”. O combate é pesado, visceral. As execuções são grotescas. O visual perturba tanto quanto desafia. Você sente o peso do capacete pontiagudo a cada pulo errado. Uma obra de arte sangrenta.

Hollow Knight
“Mas é um Metroidvania”. Pare com isso. A alma do jogo é pura tensão Souls. Você explora um reino arruinado, perde seu dinheiro (Geo) ao morrer e precisa voltar para buscar sua sombra. O combate exige precisão cirúrgica. Os chefes, como o Nightmare King Grimm, fazem orfãos de Kos chorarem. A atmosfera melancólica de Hallownest rivaliza com qualquer pântano venenoso que Miyazaki já desenhou.

Salt and Sanctuary
Antes da explosão de clones 2D, Salt and Sanctuary fez o trabalho sujo. Dois desenvolvedores traduziram a mecânica de stamina, peso de armadura e rolagem para um plano lateral com perfeição. É cinzento, sujo e implacável. Não tem mapa. Você se perde, se desespera e adora cada segundo. É a melhor adaptação direta da fórmula para duas dimensões. Ponto.

Lords of the Fallen
O original tropeçou, mas o reboot recente (e a franquia como um todo) merece atenção pela audácia visual. A mecânica da lanterna, que obriga o jogador a transitar entre o mundo dos vivos (Axiom) e dos mortos (Umbral) em tempo real, cria uma camada de pânico genuíno. Morrer não é o fim, é apenas uma queda para uma realidade pior. Armaduras pesadas nunca pareceram tão… pesadas.

Nioh
A Team Ninja olhou para Dark Souls e riu da lentidão. Aqui, a velocidade dita as regras. Situado num Japão feudal infestado de Yokai, o diferencial é o sistema de posturas (alta, média, baixa). Trocar de base no meio de um combo para recuperar Ki (stamina) é essencial. O combate é técnico, quase um jogo de ritmo onde o erro custa sua cabeça. William Adams corta demônios como se fosse manteiga, desde que você não pisque.

Remnant: From the Ashes
“Dark Souls com armas de fogo.” A descrição parecia uma receita para o desastre. O resultado foi o oposto. A tensão de recarregar uma escopeta enquanto uma raiz demoníaca corre na sua direção é única. O mundo é gerado proceduralmente, o que significa que sua campanha será diferente da do seu amigo. Chefes desenhados para o co-op e segredos obscuros fazem deste tiro em terceira pessoa um clássico cult instantâneo.

The Surge 1 & 2
Chega de dragões e castelos. Vamos falar de distopias industriais. A Deck13 acertou em cheio com o sistema de desmembramento tático. Gostou da arma daquele robô assassino? Mire no braço direito, corte fora e a peça é sua. O combate é físico, metálico. Você sente o impacto das ferramentas hidráulicas esmagando exoesqueletos. O segundo jogo refina tudo e entrega um level design labiríntico de primeira.

Mortal Shell
Curto, denso e respeitoso com seu tempo. Você não tem corpo próprio; habita carcaças de guerreiros caídos. A grande sacada é a habilidade de “endurecer”. A qualquer momento, no meio de um ataque ou de uma esquiva, você vira pedra. O golpe do inimigo ricocheteia, abrindo a guarda dele. Essa mecânica muda completamente o fluxo da batalha. É um experimento estético e mecânico que deu muito certo.

Code Vein
Vampiros pós-apocalípticos com estética de anime. Parece bobo na teoria. Na prática, oferece um dos sistemas de customização mais flexíveis do gênero. Os “Blood Codes” permitem trocar de classe a qualquer momento. Cansou de ser um mago de sangue frágil? Vire um tanque com espada gigante em dois cliques. A história é exagerada, melodramática e cheia de estilo. Anime Souls feito direito.

Blightbound
Um desvio na lista. Embora penda para o dungeon crawler cooperativo, a punição e a necessidade de leitura de inimigos atraem o mesmo público. Três heróis descem da segurança da montanha para enfrentar a Névoa (Blight). O posicionamento é tudo. Se o guerreiro não segurar a linha de frente, o mago morre. Se o ladino não interromper o ataque do chefe, todos morrem. A atmosfera opressiva garante o selo de aprovação.

Hyper Light Drifter
Cores neon, sintetizadores rasgados e uma doença terminal. O Drifter tosse sangue enquanto corta inimigos com uma espada de luz. O combate é baseado em dashes ultra-rápidos e tiros precisos. Não existe uma palavra de diálogo; a narrativa é visual e críptica. A dificuldade escala de forma brutal. Você vai morrer muitas vezes, mas vai querer voltar só para ver aquele mundo vibrar mais uma vez.

Dark Devotion
A fé aqui não é só lore, é munição. Neste side-scroller 2D, você explora um templo antigo onde cada sala é um teste de sanidade. O diferencial é a falta de backtracking convencional. Portas se fecham atrás de você. O único caminho é para baixo, para a escuridão. O sistema de bênçãos e maldições, somado a armas que quebram a defesa inimiga, cria uma experiência claustrofóbica e singular.
A lealdade à marca FromSoftware é compreensível, mas limitante. O mercado transborda de diamantes brutos e lâminas afiadas esperando para testar sua paciência. Não fique apenas rodando os polegares até a próxima DLC de Elden Ring. Pegue o controle, escolha um desses pesadelos e vá morrer um pouco. A satisfação da vitória tem o mesmo gosto, não importa o logotipo na capa.

